Quarto mandato de Lula: o que esperar dos próximos 4 anos
Posse em 5 de janeiro, PL com as maiores bancadas, dívida em alta e um plano sem metas numéricas: o mapa do Lula 4
Lula (PT) foi reeleito no domingo (25) com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o TSE. O quarto mandato de Lula começa em 5 de janeiro de 2027 e vai até janeiro de 2031. Veja o que já está no papel.
Quando começa o quarto mandato de Lula (e por que não é 1º de janeiro)
Esqueça a posse no Ano-Novo. A Emenda Constitucional 111/2021 levou a posse do presidente para 5 de janeiro e a dos governadores para 6 de janeiro, a partir da eleição de 2026.
Também não haverá equipe de transição: a Lei 10.609/2002, no artigo 9º, exclui o caso de reeleição. Lula segue no cargo e decide se mantém ou troca ministros, como explicou o InfoMoney.
E a Constituição só permite uma reeleição seguida (artigo 14, parágrafo 5º): Lula não poderá concorrer em 2030.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, disse que vai pedir a anulação da eleição, segundo o InfoMoney. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que a extensão da votação até as 19h, decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, gerou dificuldades, mas não alterou a apuração, segundo o Metrópoles. Fontes do TSE e do STF ouvidas pela Reuters veem chances remotas de anulação. Entenda o caso neste explicador.
O que está no plano de governo do quarto mandato
Em agosto, o PT registrou no TSE o documento "Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil", com 13 diretrizes, segundo o Congresso em Foco, que publicou a íntegra. Os pontos principais:
- Contas públicas: manter o arcabouço fiscal, a regra que limita o crescimento dos gastos, e buscar juros menores com a inflação sob controle.
- Trabalho: 40 horas semanais sem corte de salário, já aprovadas em emenda (veja abaixo).
- Impostos: manter a isenção do IR até R$ 5 mil, seguir tributando fundos exclusivos e offshores e implementar a reforma do consumo, segundo o InvestNews.
- Segurança: criar o Ministério da Segurança Pública, se a PEC da Segurança for aprovada.
- Educação: chegar a 80% das crianças alfabetizadas na idade certa.
- Meio ambiente: zerar o desmatamento até 2030, segundo a Exame.
O que não está no plano também conta: não há meta de crescimento, de resultado primário nem de dívida, como apontaram a Exame e o InvestNews. A Revista Oeste resumiu a crítica: as promessas são muitas, mas o petista não explica como vai cumpri-las.
Os recados do discurso da vitória
Na Avenida Paulista, Lula prometeu governar para todos, com respeito à Constituição, segundo a Agência Gov. Sobre o Parlamento, foi direto: "Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar."
As prioridades citadas: educação em tempo integral e Pé-de-Meia, ciência e tecnologia, o SUS com o Agora Tem Especialistas, combate ao crime organizado junto com os estados, participação popular pela internet e combate a crimes digitais.
De economia, falou pouco, observou o InvestNews.
A primeira promessa já virou regra: o fim da escala 6x1
Uma das principais bandeiras da campanha foi aprovada antes do segundo turno. Em 16 de outubro, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141/2026, que acaba com a escala 6x1. No Senado, o placar foi de 75 votos a 1, segundo a Agência Senado.
O cronograma, segundo a Agência Senado:
- 60 dias após a publicação: escala 5x2, com dois dias de folga (um deles de preferência no domingo) e jornada máxima de 42 horas semanais;
- 14 meses após a publicação: jornada máxima de 40 horas, sem redução de salário.
Servidores públicos ficam de fora, e quem tem diploma superior e ganha ao menos 2,5 vezes o teto do INSS pode ter jornada diferenciada. Em caráter excepcional, acordo coletivo pode prever outro regime, até a própria 6x1, segundo a Agência Brasil.
O Congresso que o quarto mandato de Lula vai encontrar
Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um partido desde a Constituição de 1988, segundo a Rádio Senado. A federação do PT com PCdoB e PV tem 88 cadeiras, 70 delas do PT. Depois vêm União-PP (87), PSD (43), Republicanos (41) e MDB (36), segundo a CNN Brasil.
No Senado, a projeção mais recente da Agência Senado, de 25 de outubro, dá ao PL 29 dos 81 senadores, contra 10 do PT. A Gazeta do Povo fala em 28, e trocas de partido ou decisões da Justiça Eleitoral ainda podem mudar a conta.
Uma emenda à Constituição exige três quintos de cada Casa, em dois turnos (artigo 60): 308 deputados e 49 senadores. Nenhum partido chega lá sozinho.
Três negociações já estão na mesa:
- Comando das Casas. O novo Congresso toma posse e elege as Mesas a partir de 1º de fevereiro de 2027 (artigo 57). O PL quer a presidência do Senado, e a reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) na Câmara deve entrar na negociação com Lula, segundo a Gazeta do Povo.
- Supremo. Em abril, o Senado rejeitou Jorge Messias para o STF por 42 a 34, a primeira recusa em 132 anos, segundo a Agência Senado. Pela conta da Gazeta do Povo, Lula pode indicar ao menos quatro ministros no novo mandato, e todos passam pelo Senado.
- Emendas parlamentares. O projeto de Orçamento de 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas de execução obrigatória (individuais e de bancada), segundo o SBT News. Para a Gazeta do Povo, emendas são a principal moeda de troca com o Centrão.
Bancada por bancada, a conta está na nossa análise do Congresso eleito em 2026.
A conta que chega junto: dívida, juros e Orçamento de 2027
O quarto mandato começa com a dívida bruta em 82,9% do PIB em agosto de 2026, segundo o Banco Central. Em dezembro de 2022, eram 71,7%: 11 pontos a mais em menos de quatro anos. O tamanho do problema está em dívida pública do Brasil.
A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, segundo o Banco Central. O projeto de Orçamento de 2027 tem meta de superávit primário (arrecadar mais do que gastar, sem contar os juros) de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do PIB.
O detalhe: a meta permite descontar gastos como precatórios. Contando todas as despesas, o superávit previsto cai para R$ 18,6 bilhões, 0,13% do PIB, segundo o Congresso em Foco.
Em julho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, discutia com Lula baixar de 2,5% para 1,5% o limite de crescimento real dos gastos, segundo a Gazeta do Povo. Não há decisão anunciada.
Na direita, a cobrança já começou. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) escreveu no X: "Finalmente o Lula receberá a herança maldita dele mesmo", segundo O Tempo. A revista britânica The Economist avaliou que Lula corre o risco de virar "pato manco", um governo sem força, logo no primeiro dia, segundo a Gazeta do Povo.
O que isso muda pra você
- Se você tem carteira assinada: 5x2 e 42 horas em 60 dias após a publicação da emenda; 40 horas em 14 meses. Acordos coletivos podem prever exceções. Vale conversar com o RH.
- Salário mínimo: o governo propôs R$ 1.741 para 2027, valor que ainda pode mudar com a inflação (INPC), segundo o Congresso em Foco.
- Imposto de Renda: a promessa é manter a isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês.
- Impostos sobre consumo: em 2027, a CBS substitui PIS e Cofins, segundo o InvestNews.
- Crédito: com a Selic em 13,75%, financiar segue caro, e o plano não detalha como baixar os juros.
O calendário de bolso:
- 5 de janeiro de 2027: posse de Lula e do vice;
- a partir de 1º de fevereiro de 2027: posse do novo Congresso e eleição dos presidentes da Câmara e do Senado;
- outubro de 2030: eleição presidencial, sem Lula na urna;
- 5 de janeiro de 2031: fim do quarto mandato.
Em resumo
O quarto mandato de Lula começa com muitas promessas, o fim da 6x1 já aprovado e três números que pesam: dívida em 82,9% do PIB, Selic em 13,75% e um PT com 70 de 513 deputados. Sem maioria própria, cada projeto dependerá de um Congresso em que o PL tem as maiores bancadas.
A eleição acabou, mas quem discorda do governo segue com um papel, pelas vias institucionais: fiscalizar o Orçamento, cobrar as metas que faltam no plano, acompanhar as votações e votar em 2028 e 2030.
Perguntas frequentes
Quando Lula toma posse do quarto mandato?
Em 5 de janeiro de 2027, em sessão do Congresso Nacional. A data foi definida pela Emenda Constitucional 111/2021, que vale a partir da eleição de 2026.
Até quando vai o quarto mandato de Lula?
São quatro anos, até a posse do próximo presidente, em 5 de janeiro de 2031. Como a Constituição só permite uma reeleição seguida, Lula não pode disputar a eleição de 2030.
Vai ter equipe de transição de governo?
Não. A Lei 10.609/2002, que criou a equipe de transição, diz que suas regras não se aplicam em caso de reeleição. Lula segue no cargo e pode manter ou trocar ministros.
Lula terá maioria no Congresso a partir de 2027?
Não sozinho. O PT elegeu 70 dos 513 deputados (88 com a federação PT-PCdoB-PV) e deve ter 10 dos 81 senadores. O PL terá as maiores bancadas nas duas Casas.
Fontes
- TSE: Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno (25/10/2026)
- Planalto: Emenda Constitucional nº 111/2021
- Planalto: Lei nº 10.609/2002 (equipe de transição)
- Planalto: Constituição Federal (arts. 14, 57 e 60)
- InfoMoney: Com Lula reeleito, haverá troca de ministros e nova posse? Entenda (25/10/2026)
- InfoMoney: Eleições 2026, cobertura ao vivo do segundo turno (25/10/2026)
- Metrópoles: Nunes Marques diz que decisão de Zanin não alterou resultado da eleição (25/10/2026)
- Reuters, via Investing.com: Derrota expressiva de Flávio Bolsonaro torna improvável anulação da eleição, dizem fontes e analistas (26/10/2026)
- Agência Gov: Lula é reeleito presidente do Brasil (25/10/2026)
- Congresso em Foco: PT registra novo plano de governo de Lula no TSE (8/8/2026)
- Exame: Plano de governo de Lula, o que o petista propõe para um 4º mandato (23/10/2026)
- InvestNews: Lula presidente, as propostas econômicas no quarto mandato (26/10/2026)
- Revista Oeste: Veja as promessas de Lula, reeleito para o quarto mandato (26/10/2026)
- Agência Senado: Congresso promulga o fim da escala 6x1 (16/10/2026)
- Agência Brasil: Congresso promulga emenda do fim da 6x1; escala 5x2 começa em 60 dias (16/10/2026)
- Rádio Senado: PL terá a maior bancada da Câmara dos Deputados (5/10/2026)
- CNN Brasil: PL terá maior bancada da Câmara; federação do PT mantém segundo lugar (5/10/2026)
- Agência Senado: Fim da eleição define composição do Senado em 2027, com 13 partidos (25/10/2026)
- Agência Senado: Indicação de Jorge Messias ao STF é rejeitada pelo Senado (29/4/2026)
- Gazeta do Povo: Lula reeleito terá de negociar com Congresso dominado pela direita em 2027 (25/10/2026)
- SBT News: Governo guarda R$ 44,8 bi para emendas parlamentares em 2027 (agosto de 2026)
- Banco Central: série 13762, dívida bruta do governo geral (% do PIB), dez/2022 a ago/2026
- Banco Central: série 432, meta da taxa Selic, setembro e outubro de 2026
- Congresso em Foco: Projeto de Orçamento de 2027 prevê salário mínimo de R$ 1.741 (31/8/2026)
- Gazeta do Povo: Durigan tenta convencer Lula a endurecer arcabouço fiscal no 4º mandato (30/7/2026)
- O Tempo: Nikolas Ferreira diz que Lula receberá a herança maldita dele mesmo (26/10/2026)
- Gazeta do Povo: Revista inglesa diz que Lula pode ser pato manco no quarto mandato (26/10/2026)
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